O Bar do Alfredo.

“No inferno os lugares mais quentes são reservados àqueles que escolheram a neutralidade em tempo de crise.” (Dante Alighieri)

COMO os milhões de leitores deste blogue já devem ter reparado, muita da acção que decorre neste mundo paralelo, passa-se no Bar do Alfredo Prazeiroso, simplesmente conhecido por Alfredo. Este bar é uma metáfora do Inferno de Dante, que é a primeira parte da Divina Comédia de Dante Alighieri. O Portal do Inferno não tem portas ou cadeados, somente um arco com um aviso, o Bar do Alfredo que é na esplanada da praia, mas não é um bar de praia normal, possui portas de vaivém como os antigos “saloons” do oeste. O Inferno está dividido em trinta e quatro cantos (de longas poesias), o Bar do Alfredo tem vinte e duas mesas, divididas por tabiques de madeira escura, sugerindo a possibilidade de romance e conspiração. Tem um enorme balcão onde reina o Alfredo, e lá fora tem uma esplanada ampla e continua, virada para o mar, com o chão em ladrilhos, e com mesas e cadeiras em bambu. A Viagem de Dante é uma alegoria através do que é essencialmente o conceito medieval do inferno. As paredes do Bar do Alfredo estão valorizadas por pinturas sobre os azulejos, comparáveis aos frescos de Giotto ou Michelangelo, onde se retrata a queda de Lucifer. Ninguém sabe quem as pintou, insinua-se que foi o próprio Alfredo. O que se sabe é que, a altas horas da noite, e depois de uns bons copos, o raio das pinturas parecem que ganham vida, e já não é o primeiro que sai pelo bar fora a alucinar, e a dizer que está a ver o próprio inferno. Muita gente se interroga, se, o Alfredo é um simples barman como parece, ou se é alguém muito mais culto, misterioso, e até poderoso, como ás vezes deixa perceber. Sigam o blogue, e com o tempo, talvez venham a descobrir, ou não.
Boas ondas.

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O príncipe do sexo!

“Quando o assunto é sexo, todos mentem.” (Jerry Seinfeld)

O Manolo Porras, mais conhecido por Manolo, meio parecido com o Antonio Banderas, descendente de galegos, mulherengo inveterado, e segundo alguns, chulo não oficial, encontrava-se no bar do Alfredo a beber uns copos. O Manolo tinha a fama de ser um amante insaciável, praticante de todo o tipo de perversão imaginável, sabendo-se por terceiros algumas das sua proezas eróticas, coisa que o tornava famoso junto das mulheres e um inimigo mortal de pais, namorados, noivos e maridos de qualquer idade, raça, credo ou posição social. Estava no bar, de olho numa surfista muito jeitosa que lhe andava a dar a volta á cabeça, mas como ela ainda não tinha aparecido, entretinha-se a “galar” uma loira espampanante que estava numa mesa sozinha. Nisto, entrou uma equipa de reportagem da televisão local. A repórter era uma mulheraça, e depois de olhar em volta dirigiu-se com o cameraman para junto do Manolo. Disse que estava ali para o entrevistar, já que ele era uma figura muito conhecida na cidade. E qual era o tema da entrevista, perguntou o Manolo.
– Prostitutas.
– Como assim, prostitutas?
– Prostitutas, mulheres da vida, putas, um assunto que o senhor conhece muito bem.
– Eu percebo de putas?
– Claro que percebe, foi o primeiro nome que me veio á cabeça quando pensamos em fazer uma reportagem sobre prostituição. A sua fama é conhecida em toda a cidade.
– Mas eu não entendo nada de mulheres da vida, se já falei com alguma foi sem saber.
– Bom, o senhor não quer fazer a entrevista, mas que entende de putas, lá isso entende, conversamos com algumas das suas “vitimas”.
– A única coisa que eu sei sobre esse tipo de mulheres é o que vejo na net, e o que de vez em quando leio nos anúncios dos jornais.
– Ok, ok, se não quer falar sobre isto tudo bem. Nesse caso porque é que não fazemos uma entrevista sobre o sexo como passatempo?
– Mas que raio? Eu… sexo como passatempo?
– Sim, como hobby, entretenimento, não me diga também que não percebe nada disso.
– Mas com os diabos, madre mia, porque é que a menina pensa que eu entendo alguma coisa de sexo, seja como passatempo, profissão ou lá o que for? Na verdade, em matéria de sexo…
– Está bem, já vi que o senhor Manolo se nega a partilhar a sua experiência com os nossos espectadores e não quer ajudar a informar a sociedade. O senhor faz como quiser, o problema é seu.
– Mas eu…
– Boa tarde, passe bem…
O Manolo ficou meio embasbacado a abanar a cabeça, como quem não acreditava naquilo que acabara de acontecer. Depois, levantou-se, passou pela mesa da loira espampanante que continuava sozinha, inclinou-se, disse-lhe qualquer coisa ao ouvido e saiu do bar. Passado meio minuto, a loira levantou-se e foi atrás dele.
O Alfredo continuou a limpar os copos, sorriu, e pensou com os seus botões: “Um dia quando for grande, quero ser como o Manolo.”
Boas ondas.

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A Arte da Guerra II

Sun Tzu disse:
Conhece o outro e conhece-te a ti próprio,
então a vitória não estará em perigo.
Conhece a terra e conhece o céu,
então a vitória pode ser completa.

Comentário:
Na China antiga, o “céu” significa o leque de fenómenos que vão do tempo meteorológico ao processo celeste e á visão imperial. Do mesmo modo, a “terra” estende-se do plano físico até aos terrenos práticos de qualquer actividade. O perigo pode ser evitado conhecendo-nos a nós próprios e aos outros. Ser vitorioso depende do conhecimento do céu e da terra.
Boas ondas.

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Velhos são os putos!

“Nunca serei velho. Para mim, a velhice começa 15 anos depois da idade em que estiver.”
(Bernard Baruch)

O João Teodoro, o tal cota com 66 anos que queria ser surfista, conversava no bar do Alfredo, com o Pedro Ponta Fina sobre as vicissitudes da idade. Dizia o Teodoro:
– Ò pá, a minha vida social agora é cada vez mais passada em médicos e clinicas. Agora dou por mim a pensar, se hoje é quinta-feira, então devo estar no cardiologista.
– É pá, ò Teodoro, isso é tramado.
– Tem algumas vantagens, ás vezes faço uma amizades interessantes com os companheiros de infortúnio.
– Mas qual é a tua doença?
– Para falar francamente, não sei! Antigamente uma pessoa tinha um médico para a vida inteira. Hoje em dia não, vais a qualquer médico e és imediatamente mandado para uma espécie de laboratório da NASA, para fazeres exames em partes do corpo que nem sequer sabias que existiam.
– È pá isso deve ser muito chato.
– Ás vezes até é engraçado. Olha, no outro dia numa consulta de rotina no psiquiatra, apareceu-me um puto da tua idade, com um problema de partir a rir.
– Então?
– O problema dele era a namorada, que era surfista, e queria posar nua para um calendário, juntamente com uma amigas, para ajudar a angariar fundos para uma escola de surf. Já tinham contratado fotógrafo, estúdio, e tudo. As fotos, e o calendário, iam ser publicados brevemente.
– E o que é que ele queria que o psiquiatra fizesse?
– Queria que ele o ajudasse a mentalizar-se, para que não se passasse da cabeça, quando desse de caras com o calendário em alguma barbearia, ou bar de praia, e estivesse na companhia dos amigos, que iram com toda a certeza gozar com ele.
– Como assim?
– Dizia o puto, que se não estivesse mentalizado, e com a cabeça limpa, não aguentava esta cena. Para ele, esta vida moderna, cheia de liberdade sexual, é muito setressante.
– E até é!
– E depois o velho sou eu. Fonix!
Boas ondas.

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Revolução, ou rotação?

“A verdadeira revolução acontece quando mudam os papéis e não apenas os autores.”
(Gilbert Cesbron)

O político Boaventura Torrado, e o escritor Adolfo de Paiva encontravam-se no bar do Alfredo a saborear o seu whisky do final da tarde, e a conversa corria nestes termos:
– Porque é que os portugueses são um povo triste? Achas que o 25 de Abril mudou alguma coisa na nossa mentalidade? Perguntou o Torrado.
– Porque estão perto da verdade, eles não sabem, mas estão. O 25 de Abril não mudou nada, continuamos os mesmos cepos. Respondeu Paiva.
– Achas que sim ó Paiva?
– Claro homem, quem tiver lido alguns livros, escritos por pessoas minimamente inteligentes, sabe que a puta da vida é sempre triste.
– Mas achas que os portugueses lêem assim tanto?
– Não, mas também não precisam, desde o Camões que isso lhes ficou entranhado na pele.
– Como assim?
– Desde essa altura que, perceberam que o homem está sujeito a muita coisa, desde logo á sua condição social, e ao seu meio, como constataram aqueles que foram bater com os costados nas caravelas. Está sujeito ao seu tempo, que na aquela altura significava pobreza e fome, para a maioria da população. Ainda por cima, o gajo que cantava as glorias da pátria era zarolho.
– Lá isso é verdade.
– Uma das razões da nossa desgraça, senão a principal, é que, cada português tem o corpo de um homem (ou mulher), a cabeça de um puto, e o coração de um deus.
-E o que é que isso quer dizer?
– Quer dizer que, a tristeza advêm da diferença entre aquilo que sentimos e aquilo que acontece, entre o que quer o coração, e a cabeça, e o que a vida não nos dá.
– Não está mal pensado, não senhor.
– Pois, é quase como se todos aqueles que moram na costa, se sentissem surfistas, só pelo facto de verem o mar. Depois, na realidade, não se equilibram numa prancha, ou tem medo de molhar os pés, ou então não sabem nadar. A tal diferença entre o querer, e o poder.
– E o 25 de Abril?
– A mesma merda, queríamos fazer uma revolução, e o que fizemos foi uma rotação de 360º!
Boas ondas.

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As pequenas merdas.

“O suicídio não é querer morrer, é querer desaparecer.” (Georges Perros)

O grande psiquiatra reformado, Dr. Pardal, estava no bar do Alfredo a beber uns copos, e a falar com o Pompeu, e com quem o quisesse ouvir. Dizia ele:
– As pessoas têm uma ideia errada sobre o suicídio.
– Então porquê? Perguntou o Pompeu.
– Bom, não são os amores ou desamores, que nos levam ao suicídio, porque na realidade apaixonamo-nos uma vez na vida, odiamos duas ou três, e sofremos quatro ou cinco vezes. Mas, irritámo-nos para aí vinte vezes por dia. Na verdade, é a irritação que dá cabo de nós!
– A irritação doutor?
– Sim, a irritação. Mais que o divorcio, mais que os despedimentos, mais que ser traído por a namorada, ou namorado, a irritação é a principal causa de setress, e por consequência, da mortalidade que assola a nossa existência.
– Mas que tipo de irritação?
– Ò meu caro Pompeu, toda!
-Toda?
– Sim, toda! È a torneira a pingar, o colega do lado a fungar, a criancinha a berrar no restaurante, a empregada que troca o pedido, o namorado que não baixa a tampa da sanita, a namorada que se esquece de tapar a pasta dentífrica, o tipo que mete 5 euros de gasolina e quer ver a pressão dos pneus, é a pessoa á nossa frente na bicha do supermercado, que insiste em pagar um quilo de batatas com uma nota 100 euros, é o tipo que paga as contas da água, da luz, do telefone e dos seguros no Multibanco, é o mar com mais surfistas do que ondas, são os engarrafamentos, os maus cheiros nos transportes públicos, é a programação da TV trocada, são as fuças do Relvas, são os comentários do prof. Marcelo, a tanga do Zezé Camarinha, os casacos do Goucha… enfim, é por estas e por outras que as pessoas se suicidam. E com toda a razão.
Boas ondas.

 

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Olha a Maçã!

“Nós transformamo-nos naquilo que praticamos com frequência. A perfeição, portanto, não é um acto isolado. É um hábito.” (Aristóteles)

ESTOU a ler um livro sobre o Steve Jobs, e o seu método de trabalho. O livro tem conceitos interessantes, um deles é sobre o carácter de Jobs, e a sua necessidade absoluta, mesmo fundamental, em se compenetrar num único aspecto ou pormenor, afastando tudo o resto do seu campo de visão e da sua mente, até ter chegado ao que procurava. Claro que todos nós somos capazes de nos concentrarmos de vez em quando. No entanto, Jobs, tratava de todos os aspectos de um produto ou decisão com o mesmo nível de intensidade de escrutínio. Primeiro apontava a sua visão para a direcção desejada, e depois para a visão do produto. Como iria funcionar e como é que as pessoas o iriam utilizar. O que é que este conceito tem a ver com o surf? Tem muito, porque pode aplicar-se á pratica do surf. Quando treinares, procura dedicar-te a um único aspeto técnico do treino. Uma coisa de cada vez. Se tens problemas no teu Cut back, treina-o intensamente até o dominares por completo. Depois passa para outra manobra que te cause problemas, e treina-a intensamente até a resolveres. E por aí fora. Resumindo, não tentes fazer tudo de uma vez. Lembra-te da Maçã. Não a consegues comer toda de uma vez, saboreia cada dentada. Faz a mesma coisa com a vida, mas atenção, nesta vida, encontras muitos mais bichos, dos que podes encontrar numa simples maçã. Boas ondas.

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O surf não é uma religião!

“A religião é aquilo que impede os pobres de matarem os ricos.” (Napoleão Bonaparte)

HÁ uma velha história Persa que define muito bem três atitudes humanas básicas, principalmente a mais estúpida de todas, a religiosa. Passa-se num quarto escuro.
Num quarto escuro um homem procura alguma coisa. È um cientista.
Num quarto escuro um homem procura uma coisa que não está lá. É um filósofo.
Num quarto escuro um religioso procura uma coisa que não está lá e exclama:
– Encontrei!
O que é que isto tem a ver com o surf? Tudo, porque muitas vezes o surfista procura no surf algo que não está lá. O surf inspira muita gente, desperta muitas emoções, faz com que muitos se transcendam, mas (há sempre um mas), não é uma religião. A pior coisa que se poderia fazer ao surf, era transformá-lo numa religião. Porquê? Porque já sabemos o que acontece com as religiões. Dão sempre para o torto, e há sempre alguém que se arma em dono dela. As coisas são o que são, e saber apreciá-las exactamente como são, já revela uma grande dose de sabedoria. Na vida em geral, e no surf em particular, não é preciso mais nada, muito menos religiões.
Boas ondas.

 

A Coruña, O Orzán, surf.

A Coruña, O Orzán, surf. (Photo credit: Wikipedia)

O inferno são os outros!

“Não hesito em declarar: o diploma é o inimigo mortal da cultura.” (Paul Valéry)

GARANTO que, não é para armar aos cucos que usamos para titulo deste post, uma citação do Sartre. Mas a cultura aqui na redação, é tanta, tanta, que nos sai pelos poros, de uma maneira natural, como se tivesse-mos acabado de fazer uma sauna com o escritor Paulo Coelho. Bom, como diz a outra, isso agora não interessa, vamos á história.
O Rodrigo Pompeu, estava como de costume, a beber uns copos no bar do Alfredo, quando lhe apareceu pela frente o António Cavalo, mais conhecido pelo Tó Cavalo, o maior totó lá do sitio. O Tó, não tinha jeito para nada, era um melga de primeira, e queixava-se de tudo, e de todos.
– Já vistes, ó Rodrigo? O pessoal do surf não me deixa ir surfar com eles!
– Humm…
– Ò pá, até comprei um fato, e uma prancha á maneira, o fato é igualzinho ao do Pedro.
– Humm, Humm…
– Não sei o que é que o pessoal tem contra mim.
– Humm…
– Olha lá ó Rodrigo, também só dizes humm, e mais nada?
-Tó, ouve bem isto que te vou dizer, porque só te vou dizer uma vez: – “O teu tempo é limitado e só vives uma vez, por isso, não desperdices a tua vida a, tentar viver a vida dos outros, e a tentar agradar a terceiros, seja de que maneira for.”
– Terceiros? O que é que queres dizer com isso?
– Ò pá, não deixes que a opinião dos outros te faça a cabeça. Segue o teu coração, e se for caso disso, vai surfar sozinho. Faz o que tens a fazer sozinho, não estejas á espera dos palpites dos outros.
– Ò Rodrigo, tens toda a razão, a partir de agora vou-me estar a cagar para a opinião do pessoal todo!
– È assim mesmo!
– Já agora, o que é que achas dos meus novos Ray Ban? Não me ficam a matar?
– Vai-te foder…
Boas ondas.

English: drawing for The New York Times

English: drawing for The New York Times (Photo credit: Wikipedia)

Conhece-te a ti mesmo, ou, pelo menos, tenta!

“Noli foras ire, in interiore homine habitat veritas”

“Não saias, é no interior do homem que habita a verdade.”
(Citado por Carl G. Jung)

HOJE, até citação em latim temos. È para vocês verem que isto não é nenhum blogue mixuruca, que só fala de ondas, tubos e cabelos loiros. Não senhor, surfista que leia este blogue, fica com uma equivalência a um curso superior de filosofia. Se o Sócrates, e o Relvas podem, porque é que nós não podemos? Afinal, e segundo parece, a Universidade não serve para nada. Mais vale curtires umas ondas e, de vez em quando, dares uma vista de olhos a este blogue. É muito melhor, e mais estimulante, colocares-te do lado da vida, em vez de ficares do lado das ideias protectoras. Ai, filho(a) tira um curso, porque um canudo é sempre um canudo, e etc. e tal. Deves tirar um curso, se realmente for isso que queres, e que te realiza. Mas se vais tirar um curso, para mais tarde arranjares um emprego, e conseguires uma situação estável na vida, esquece, porque isso já foi chão que deu uvas. Mete uma coisa na cabeça, o conhecimento de ti mesmo, é o único, e maior tesouro que alguma vez vais possuir. O resto, são trocos, e podes ficar sem eles a qualquer momento. Boas ondas.

English: Carl Gustav Jung Ελληνικά: Καρλ Γκουσ...

English: Carl Gustav Jung Ελληνικά: Καρλ Γκουστάβ Γιουγκ (Photo credit: Wikipedia)