Sócrates, o Pastor Alemão.

“Os cães são o nosso elo com o paraíso. Eles não conhecem a maldade, a inveja ou o descontentamento. Sentar-se com um cão ao pé de uma colina numa linda tarde, é voltar ao Éden onde ficar sem fazer nada não era tédio, era paz.” (Milan Kundera)

O Bar do Alfredo não tinha alarme, nem estava ligado á securitas, nem a outra empresa de segurança qualquer. Não precisava, tinha o Sócrates como segurança, e que segurança, o Sócrates era um pastor alemão enorme, doce como o mel na presença do Alfredo, ou quando andava solto, mau como as cobras quando fechado no bar, ou quando o Alfredo mandava. Também nunca havia distúrbios no bar, porque bastava o Alfredo chamar pelo Sócrates que parava logo a confusão. Havia um momento único do dia, exactamente ás oito da noite em ponto, sob o olhar embevecido do Alfredo, o descomunal cão, colocava as patas sobre o balcão, e praticamente, engolia de uma só vez, o enorme bife (quase meio quilo de carne) que o Alfredo fazia questão de lhe dar todos os dias. O Pompeu que fazia parte da mobília, e estava todos os dias colado ao balcão, achava piada àquele ritual, mas também tinha uma certa curiosidade. Perguntou ele ao Alfredo:
– Ouve lá ó Alfredo, tu nunca dás ração, ou outro tipo de comida ao Sócrates?
– Não, quer dizer, de vez em quando dou-lhe um osso enorme, mas sabes como é, ele está habituado ao bife, e na realidade merece-o bem.
– Mas um bife todos os dias?
– Olha Pompeu, eu podia dar-lhe só aparas, ou ração da pior, que ele não se queixava, ou deixava de gostar de mim. Aprendi muito a observar este cão, ele não se queixa da sua condição, não geme no escuro a chorar os seus pecados, não discute o seu dever perante qualquer deus, não passa a vida insatisfeito, nem tem a mania de possuir coisas, como carros, ou casas. É mais fiel, carinhoso e poupado do que qualquer mulher. Por isso, e por outras coisas, merece o seu bife diário.
– Não podias pelo menos ter-lhe dado outro nome?
– Estás a gozar, onde é que eu ia arranjar um nome melhor, para um cão tão inteligente como este?
– Tens razão, Isaltino não lhe ficava nada bem.
Boas ondas.

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