Arquitectices.

“No adultério há pelo menos três pessoas que se enganam.”
(Carlos Drummond de Andrade)

O arquitecto Carlos Traços, e o engenheiro Eduardo Recto estavam á conversa no bar do Alfredo, a noite já ia longa, e com muitos copos no bucho a conversa derivou primeiro do surf, para o profissional, e depois para o pessoal, ás tantas desabafa o arquitecto:
– Olha, meu… A minha mulher saiu-me cá uma tremenda mentirosa…
– A Julia? – Surpreende-se o amigo – então, o que é que aconteceu? Porque é que estás a dizer isso?
– Porque ontem não dormiu em casa e inventou que passou a noite com a irmã!
– E não passou?
– Claro que não! Ès parvo ou quê? Quem passou a noite com a irmã dela fui eu!
Boas ondas.

 

Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade (Photo credit: Carlos Varela)

Maria Panela e o dentista.

“Se um dia sentir um enorme vazio dentro de você, vá comer! Pode ser fome. ”
(Adolfo de Paiva)

A Maria Panela andava intrigada, há mais de 10 anos que o Sr. Manuel frequentava o seu restaurante. Ele, e a malta do surf, já faziam parte da mobília. De um momento para o outro, começou a ir á concorrência do outro lado da rua. Um dia ganhou coragem e foi direita ao sr. Manuel e perguntou:
– Ò Manuel, o que é que aconteceu? A nossa comida deixou de te agradar?
– Não, não é nada disso! Estou apenas a cumprir ordens do meu dentista.
– Do teu dentista?
– Quando lhe mostrei um dente que me doía imenso, ele disse-me para passar a comer do outro lado.
Boas ondas.

 

image

 

Mijo de surfista.

“O whisky é o melhor amigo do homem, ele é o cachorro engarrafado.”
(Vinicius de Morais)

NO Bar do Alfredo, apareceu um grande bebedor que apostou com o Alfredo que era capaz de reconhecer, com os olhos vendados, qualquer bebida que lhe dessem. A aposta foi aceite. O Alfredo serviu-lhe tudo o que tinha de bebidas alcoólicas e ele, identificava-as a todas com maior, ou menor facilidade.
Desesperado, o Alfredo serviu-lhe, então, um copo de água da torneira. O bebedor engole um trago, faz uma grande careta, e depois confessa:
– Não consigo descobrir o que é. Mas posso garantir uma coisa, esta bebida é uma treta, deve ser mijo de surfista, não tem saída nenhuma.
Boas ondas.

image

Psiquiatria gourmet.

“Há pessoas que ao invés de serem avaliadas por psiquiatras deveriam se analisadas por astrónomos, pois imaginam ser o centro do universo.” (Dirceu)

O Dr. Pardal estava sentado ao balcão do bar do Alfredo já bastante entornado, e quando isso acontecia, tanto era capaz de dizer as maiores genealidades, como a maior das barbaridades, precisamente por isso, os clientes habituais (principalmente os surfistas) costumavam meter-se com ele para ver o que dali saía. O Pompeu, esse então, não perdia uma oportunidade:
– Ó Doutor, ouvi dizer que o senhor é muito bom, mas que é careiro como o raio…
– Meu caro senhor, eu sou o melhor psiquiatra do país e arredores e, por isso mesmo, também o mais caro.
– Caro quanto? Era capaz de me dar uma consulta aqui mesmo?
– Porque não? A minha consulta custa duzentos euros e, por essa quantia, pode fazer-me duas perguntas.
– Duzentos euros e só duas perguntas? O senhor não acha que é um bocado caro doutor? Pergunta o Pompeu.
– Talvez… talvez seja… Qual é a segunda pergunta?
Boas ondas.

image

Mais vale prevenir…

“O dinheiro não tem a mínima importância, desde que a gente tenha muito. ”
(Truman Capote)

O Alfredo, com a maior das modéstias, explicava a um “turista” brasileiro, que na sua opinião já tinha consumido demasiado, sem dar sinais de que tinha dinheiro para tal, a mística do seu bar:
– Esta casa é uma das mais famosas do mundo entre os surfistas. Entre estas paredes já beberam campeões, actores conhecidos, jornalistas consagrados, muita gente famosa e aqui morreu o Fernando Mãozinhas!
– Fernando Mãozinhas, quem foi esse cara?
– Ah!!! Não sabe? Foi um “artista” que quis sair sem pagar a conta!!!
Boas ondas.

image

Hora da Morte.

“Não se aproxime de uma cabra pela frente, de um cavalo por trás ou de um idiota por qualquer dos lados” ( Provérbio judeu)

O Moisés Pechincha tinha ido ao bar do Alfredo tomar uma bebida, coisa rara porque o velho detestava gastar dinheiro, e não era grande apreciador de surfistas. Mas, como um possível cliente tinha combinado um encontro no bar para fechar um negocio, ele não teve a lata de fazer sala sem beber nada. Sentou-se ao balcão, pediu um vodka, e esperou, esperou, mas o putativo cliente não apareceu. Às tantas sacou do seu velho relógio de bolso, verificou as horas e decidiu por-se a andar. Um cliente que estava ao lado olhou para o relógio e comentou:
– Isso parece um Roskopf!
– Parece, e é! Respondeu o Pechincha… – é uma velha herança de família… boas tardes meus senhores!
Depois do velhote sair, o Alfredo virou-se para o cliente que tinha feito a observação e disse-lhe:
– A história não é bem assim, aquilo não foi propriamente herdado…
– Então?
– Quando o pai do Pechincha, o judeu mais forreta da história estava prestes a morrer, chamou o filho, este ajoelhou-se junto á cama e ouviu o velhote dizer com muito custo:
– Filho… Este relógio…Foi do teu bisavô… E depois foi do teu avô… E depois foi meu… Agora… Chegou a tua vez… Queres comprá-lo?
Boas ondas.

 

 

image

O Sócrates e o Padrinho!

“Os filmes não criam psicopatas. Eles só os tornam mais criativos. (Skeet Ulrich)

O Alfredo, depois de muito o chatearem, lá colocou uma televisão de plasma no fundo do bar, para o pessoal poder ver o futebol, algumas reportagens sobre o surf, e um filme de vez em quando. Um dia estava a dar o filme O Padrinho, e o Sócrates, o pastor alemão do Alfredo, estava sentado em frente á televisão, muito atento, e sempre que aparecia o Marlon Brando, o cão batia com a pata no chão, abanava o rabo, e até parecia que sorria. Um cliente que estava numa mesa próxima, disse para o Alfredo:
– Ò Alfredo, estou admirado, até parece que o teu cão percebe o filme todo.
– Ai estás admirado? Pois muito mais admirado estou eu!
– Então…mas porquê?
– È que ele… leu o livro e não gostou!…
Boas ondas.

image

Quero um tacho, mas não tão grande!

“Só os maus ou os tolos pensam que os favores são gratuitos.” (Publílio Siro)

O pai do Pedro Ponta Fina, o surfista malandreco que frequenta assiduamente este blogue, foi á capital e aproveitou para visitar um amigo deputado, para lhe pedir um emprego para o filho, o irmão mais novo do Pedro, que tinha acabado de completar o décimo segundo ano:
– Eu tenho uma vaga de assessor, só que o ordenado não é muito bom e sabes como é a vida aqui na capital, é caríssima…
– Quanto é, doutor?
– Um pouco mais de dez mil euros.
– Dez mil? Mas isso é muito dinheiro para o puto! Ele nem sabe o que fazer com essa massa toda, ou então, gasta tudo em putas e vinho verde. Não tens uma vaga mais modesta?
– Só se for para trabalhar na Assembleia. Meio período. Estão a pagar cinco mil, e a única coisa que ele tem que fazer é não adormecer durante as sessões. O resto do tempo pode ir surfar.
– Ò pá, ainda é muito! Isso vai acabar por estragar o puto. Não quero que ele comece a ganhar vícios muito cedo. Não tens um emprego em que paguem aí uns mil ou mil e quinhentos euros?
– Ter, até tenho. Mas isso é só por concurso e é preciso ter um curso superior, seja Engenharia, Economia, Direito ou Gestão. E ainda tem de possuir conhecimentos em informática, além de inglês, francês e alemão, que agora é quase língua obrigatória…
Boas ondas.

image

Corrupto ao cubo!

“Portugal: esse estranho país de corruptos sem corruptores.” (Adolfo de Paiva)

Já sei que o cubo de três são vinte e sete, mas não dá jeito nenhum para o titulo, portanto fica assim, afinal quem é que manda aqui? Eu, ou o Toino da contabilidade? Bom, vamos ao que interessa. O Boaventura Torrado, autarca da cidade, tinha resolvido mandar fazer uma Academia de Surf na praia. Não era um barraco qualquer, era uma super estrutura, com todos os matadores, para votar inveja em qualquer uma do país, e mesmo do estrangeiro. O arquitecto tinha feito um projecto arrojadíssimo, coisa para custar um dinheirão. Os surfistas andavam todos entusiasmados, mas também, um bocadinho desconfiados. Por via das duvidas o Torrado chamou três empreiteiros: um alemão, um espanhol e um português.
– Faço a obra por três milhões de euros – propôs o alemão. – Um pela mão de obra, um pelo material e um de lucro.
– Faço a obra por seis milhões de euros – propôs o espanhol. – Dois pela mão de obra, dois pelo material e dois para mim. “Pero, el servicio es de primera”.
– Faço a obra por nove milhões – disse o português.
– Nove? – espantou-se o Torrado – è de mais! Então porquê?
– Três para mim, três para si e três para o alemão fazer a obra!
Boas ondas.

image

A economia segundo Moisés Pechincha!

“Um dos grandes segredos da sabedoria económica é saber aquilo que se não sabe.” (John Galbraith)

No bar do Alfredo decorria uma conversa muito animada entre os surfistas sobre as dificuldades económicas que a maioria deles enfrentava para praticar a sua actividade favorita. O Pedro Ponta Fina argumentava que na generalidade, a malta do surf não percebia nada de economia, e que deviam era ter umas aulas com o velho Moisés Pechincha, esse sim, um autentico ás na arte de fazer render o dinheiro, e para demonstrar o que estava a dizer resolveu contar a seguinte história:

” – O Moisés Pechincha, o judeu mais judeu da cidade, numa das suas voltas pelo campo viu um cavalo á venda por mil euros e resolveu comprá-lo, concordando com o vendedor que ele lhe entregaria o cavalo no dia seguinte. No outro dia o vendedor do cavalo procura-o e diz:
– Caro amigo, peço imensa desculpa, mas infelizmente tenho más noticias … o cavalo morreu.
– Tudo bem. Devolva-me o dinheiro.
– Não posso. Já o gastei.
– Não há problema nenhum, traga-me o cavalo morto.
– O quê? Mas o que é que vai fazer com ele?
– Vou rifá-lo!
– Mas você não pode rifar um cavalo morto!
– Claro que posso! Só não digo a ninguém que ele está morto.
– Passado uns meses o vendedor do cavalo encontra o Moisés e pergunta-lhe:
– Então, o que é que aconteceu ao cavalo morto?
– Eu rifei-o, tal como lhe tinha dito que iria fazer. Vendi quinhentos números a dois euros. Como tal, recuperei novecentos e noventa e oito euros.
– Então, e ninguém reclamou?
– Só o indivíduo que ganhou, mas eu devolvi-lhe os dois euros dele!”
Boas ondas.

image