Carta da choça.

“O que é a honestidade senão o medo da prisão?” (Carlo Dossi)

O Alfredo abriu a carta, leu-a, e a seguir virou-se para o pessoal que estava ao balcão, e que na realidade já fazem parte da mobília, sendo sobejamente nossos conhecidos, tratou de os elucidar:
– È uma carta do Pitbull, a primeira que escreve da choça.
Convêm esclarecer que o Pitbull era um autentico faz-tudo do bar do Alfredo, porteiro, arrumador, guarda costas, nadador salvador e o que mais fosse preciso. Tinha levado seis meses de cana porque tinha partido o maxilar a um cliente mais ranhoso, e mais bêbado do que o costume, que tinha tentado (e sublinho tentado), insultar o Alfredo. Mesmo assim, o desgraçado do cliente estava cheio de sorte, porque precisamente nesse dia, o Sócrates, o pastor alemão do Alfredo, tinha ido ao veterinário levar as vacinas da praxe. Senão fosse isso, alem do nariz partido, provavelmente sairia do bar sem uma perna, ou sem um braço. O Rui Ronca, mais conhecido por Pitbull era uma espécie de Mike Tyson em versão cara pálida, talvez um pouco mais baixo, e não tão pesado, mas igualmente assustador. Mas vamos ao que interessa, o Alfredo continuou a ler:
– Caro Alfredo, as melhores saudações para ti, e para o pessoal do bar, em especial para a malta do surf. Por aqui corre tudo bem, quer dizer, dentro daquilo que é possível entre quatro paredes, e no meio duma gandulagem que só visto. Pessoalmente, não tenho razões de queixa, já que sou tratado como um lorde, quer pelos guardas, quer pelos presos.
– È pá, não fazia ideia que o Pitbull sabia escrever! Observou o Pompeu, que nunca perdia uma oportunidade para meter a sua colherada. O Alfredo sorriu e continuou:
– Para esse tratamento VIP muito contribuiu o conselho que tu me destes, e que pus em prática no primeiro dia em que cá cheguei. Muito obrigado Alfredo e que o demo te pague.
– Mas o que raio é que tu dissestes ao homem? Inquiriu o Pompeu. O Alfredo guardou a carta, e esclareceu o Pompeu:
– È simples, disse-lhe que, logo na primeira oportunidade, e em frente a toda a gente, por exemplo no refeitório, perguntasse quem era o gajo mais perigoso da prisão, o maior mete nojo, se dirigisse a ele, e sem hesitar lhe pregasse uma valente cabeçada no nariz. De certeza que a partir daí ninguém o chateava mais. Meu dito meu feito. É pena que esta técnica não resulte com os políticos portugueses. Era mais eficaz do que as eleições, e um autentico maná para os cirurgiões plásticos. Infelizmente, este não é um país de Pitbulls, mas de caniches, e quem nasceu para caniche, jamais chega a Pitbull.
Boas ondas.

 

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