No Restaurante Maria Panela, ou comes tudo, ou levas com ela.

“Os quadros que eles penduram nos restaurantes não são muito melhores do que a comida servida nos museus.” (P. Vries)

O melhor restaurante da cidade era sem sombra de duvidas o Maria Panela, que era gerido pela dona com o mesmo nome. Com uma localização invejável, junto á praia, era muito frequentado pelos surfistas, e por quem tivesse coragem de aturar o feitio sui generis da dona. O pessoal da terra já sabia das pancas da Maria, que apesar disso, ou talvez por isso mesmo, era uma cozinheira do outro mundo. Casa pequena, mas muito acolhedora, não servia mais de cinquenta comensais de cada vez. A comida era tradicional, e cozinhada como deve ser, á moda antiga. Era de comer e chorar por mais, e não havia memória de reclamações, a própria Maria circulava regularmente pela sala para apreciar o apetite dos seus clientes, que, diga-se em abono da verdade, raramente deixavam algo que se visse no prato. A dona da casa não tinha papas na língua, e foi um bocado a medo que o Zé Bodes resolveu lá levar o seu ultimo engate de praia, uma miúda da capital, a tender para tia, apesar da tenra idade de 19 anos. Como era altura dos santos populares, o Zé resolveu pedir sardinha assada na brasa com broa da casa. Ou seja a sardinha deveria ser comida sobre a broa que a própria Maria fazia, e que era excelente. Quando iam a meio da refeição, o Zé reparou estarrecido que, a Maria se encontrava junto á mesa, onde a sua putativa namorada fazia malabarismos com a faca e com o garfo para tirar as espinhas á sardinha. A voz da Maria ouviu-se na sala toda “não, não, não senhora, não é assim que se come sardinha assada”. Em seguida demonstrou ao vivo e a cores como a sardinha deve ser comida: pegou na sardinha do prato da chocada bimba, colocou-a sobre a broa e fingiu dar-lhe uma dentada. Devolveu a sardinha ao prato da rapariga, e virou costas indignada. Alguns surfistas presentes na sala desmancharam-se a rir, para grande desespero do Zé. Tirando esse pequeno incidente o jantar até correu bem, e as deliciosas sobremesas instalaram a paz na mesa, o que deu vontade ao Zé de continuar a conversar, mesmo depois de ter pago a conta, e ainda que pelo canto do olho visse que havia varias pessoas á espera de mesa. Estava ele a contar as peripécias do seu ultimo salvamento como nadador, quando a Maria se aproximou da mesa e com uma delicadeza suspeita e perguntou se estavam satisfeitos e se tinham sido bem atendidos. Depois de o Zé e a amiga terem feito um grande sorriso e respondido que sim, ela disse “que bom! Então agora os meninos já se podem levantar e dar de frosques, não?” E assim terminou mais um jantar romântico, naquela romântica cidade. Boas ondas.

 

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